Eram duas da tarde e uma pizza a fumegar no prato.
Mesmo à nossa frente, parou um Nissan Datsun Deluxe Coupe , matricula TR-96-15, volante à direita, mala do carro dupla, e um casal de velhinhos.
Parecia uma miniatura, um brinde saído de uma lata de Ovomaltine.
Estacionaram...e lentamente, adormeceram.
Os transeuntes paravam a olhar para aquele objeto de museu. Uma relíquia.
Passado cerca de dez minutos, o homem, abre a porta do carro, segura-se ao volante, roda o corpo pesado, põe as pernas fora do carro, e lentamente, muito lentamente, consegue vencer a gravidade e erguer com orgulho, o peso da sua existência. Dirige-se muito devagar, para a porta da sua acompanhante. Abre-a, estende a mão à sua mulher, e com uma lentidão imensa, aguarda que ela também consiga erguer o seu corpo para fora do veiculo. De seguida, retira as muletas da mala do carro e dá-as à mulher. Fecha as duas portas com o cuidado de quem guarda um tesouro. Finalmente, começam a caminhar. E nesse momento, nesse preciso momento, caminham com a dignidade de uma juventude inquieta e revolta, e quase nos fazem acreditar que são um casal de namorados que acabaram de comprar aquele carro e que nós, nós é que estamos fora do tempo e não pertencemos àquela história.
A seguir... pedimos um café.


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